terça-feira, 31 de agosto de 2010

Já gastámos as palavras

Já gastámos as palavras pela rua meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
 
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.


Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.


E já te disse: as palavras estão gastas.

Eugénio de Andrade

Homem Expedição (compilação de partes de poemas de Mário Cesariny, feito pelo meu pai (Lídio Coelho - 1961-1999))

Digo-te, o homem expedição sou eu...
Perdido numa manhã e já ninguém se lembra... Já não há lágrimas à porta.
Um dia passei por um lago, um lago de silêncio onde só eu existia; eu e o teu enorme retrato.
Lembras-te dos meus cabelos? Eram negros não eram?
Lembras-te do meu sorriso? Era triste, não era?
Lembras-te de mim? Lembras?
Eu sei... Eu sei que tu te lembras... E era uma vez um homem apaixonado por uma mulher de vidro, que era uma colher de prata no interior de um quarto.
Aparecia uma planície cheia de vírgulas... era a aflição dos outros... Lembro-me de tudo como se fosse hoje.
Sim, lembro-me de tudo como se fosse hoje: as crianças brincavam no jardim e era domingo. De repente, apareceste tu a meu lado; todos os meus irmãos fugiram; e nós que fizemos? Até onde irá a nossa confiança? Tu, meu múltiplo amor, és um alcaide de água no deserto. Eu sei que me queres encontrar no teu caixote como se fosse um animal morto, mas não me importo... Os teus olhos estão belos como a lua... O teu cabelo continua belo como o sol.
Digo-te, o homem expedição sou eu.